Posts Tagged ‘tempo’

mais posts antigos!

Saturday, May 3rd, 2008

O Assassinato do Tempo

Alice suspirou, entediada. “Acho que vocês poderiam fazer alguma coisa melhor com o tempo”, disse, “do que gastá-lo com adivinhações que não têm resposta.”
“Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu”, disse o Chapeleiro, “falaria dele com mais respeito.”
“Não sei o que quer dizer”, disse Alice.
“Claro que não!” desdenhou o Chapeleiro, jogando a cabeça para trás. “Atrevo-me a dizer que você nunca chegou a falar com o Tempo!”
“Talvez não”, respondeu Alice, cautelosa, “mas sei que tenho de bater o tempo quando estudo música.”
“Ah! Isso explica tudo” disse o Chapeleiro. “Ele não suporta apanhar. Mas, se você e ele vivessem em boa paz, ele faria praticamente tudo o que você quisesse com o relógio.” (…)
“É assim que você faz?” perguntou Alice.
O Chapeleiro sacudiu a cabeça, pesaroso. “Eu não!” respondeu. “Brigamos em março passado… pouco antes de ela enlouquecer, sabe… (apontando para a Lebre de Março com sua colher de chá); foi no grande concerto dado pela Rainha de Copas (…)
“Bem, eu mal acabara a primeira estrofe”, disse o Chapeleiro, “quando a Rainha deu um pulo e berrou: ‘Ele está assassinando o tempo! Cortem-lhe a cabeça!”
“Terrivelmente cruel!” exclamou Alice.
“E desde aquele momento”, continuou o Chapeleiro, desolado, “ele não faz o que peço! Agora, são sempre seis horas.”

[Lewis Carroll]

dizem que o homem inventou a roda e descobriu o fogo, mas estou pra duvidar. Porque a roda é tão redondinha e o fogo é tão incendiário que não posso crer que surgiram na massa encefálica da mesma espécie que inventou o trabalho - tendo como trabalho aquela visão capitalista em que você se tranca em uma jaula durante um período exato de tempo todos os dias e passa cerca de 589 horas semanais lá dentro apenas e tão somente pra ganhar dinheiro. Aquele lá que você vai gastar nas 5 horas de vida restantes no mês.

Daí que eu briguei com o tempo também. E nem me importo se ele resolver bater sempre as 6 horas, até porque eu não gosto de chá. Eu resolvi ser bem pós-moderna e simplesmente ignorá-lo. É, ignorar o tempo. Vamos dizer assim, eu dei um tempo do tempo. Aquela convenção social chamada relógio só vai me servir pra me orientar em uma ou outra convenção social, pra não me atrasar ou me adiantar, ou desejar boa tarde às 2 da madrugada. Mas de resto, ó, não estou nem aí. Nem preciso dizer a que horas eu estou escrevendo esse post, porque horas non eczistem, e não vou arrancar meus parcos cabelos pensando “oooh jerônimo, não vai dar tempo de fazer isso”, porque pra quem ignora o tempo, sempre dá.

Se ele perguntar de mim, diga que não me viu passando por aí, ok?

ah,
e por favor, não fala que eu tou online no MSN, porque ele tá bloqueado.

 ———————————–

Quinta-feira, Abril 19, 2007

O Homem que Socializava Demais

Aconteceu num dia, foi de repente, assim tão de repente que parecia até coisa da Clarice Lispector. Ele tinha acordado meio Calvino aquele dia, e sabia que alguma coisa de muito inconveniente resultaria desse fato. Foi mais ou menos (um pouco mais do que menos) quando ele entrou no ônibus e viu aquele senhor puxando a cordinha pra avisar o motorista. Aquela cordinha, aquela cordinha puída e insignificante foi o estopim para o início do momento epifânico, que se fosse escrito pela Clarice daria meio que um livro inteiro, daqueles bem cheios de aaaahs e oooooohs e inclusive protagonizaria uma cena de luxúria e um suicídio, ao mesmo tempo (teria até gente se enforcando na cordinha, coisa feia de se ver). Mas como não sou Clarice (e agradeço aos céus a cada dia por isso), só vou dizer que

Oh - pensou o homem em um pensamento monossilábico. E ele olhou em volta e viu quanta gente tinha em volta dele. E ele percebeu que todas as pessoas eram pessoas. E que todas as pessoas (que eram pessoas) tinham algo a dizer pra ele. Que se ele tivesse nascido no bairro vizinho, provavelmente seria o melhor amigo do motorista do ônibus, e que nada ou pouca coisa impediria de que aquela simpática velhota babando no banco de trás fosse sua sogra.

Então ele pensou em um universo em crise em que ele conhecesse todo mundo. Seria tão mais fácil, e ele teria as chances e as oportunidades em dobro, em triplo, em quádruplo, em pentágonuplo. Só conhecendo todas as pessoas do mundo ele seria capaz de saber tudo o que a vida poderia lhe oferecer. Ele não imaginaria mais como seria seu futuro se ele fosse amigo da menina de óculos que andava na calçada do outro lado da avenida. Era só chegar lá, e fazer o futuro acontecer fora da imaginação dele. E ele começou sua estratégia. Entrava e dava oi. Pra todos. Cumprimentava com beijinho, se apresentava, dava cartão de visita. No começo, falava do tempo, comentava sobre a política e o futebol, mas a prática foi tamanha que ele era capaz de saber o assunto preferido de seu mais novo conhecido antes mesmo de cumprimentá-lo. E foi. E o trabalho foi ficando cada vez mais prático. Quanto mais gente ele conhecia, mais eles lhe apresentavam seus amigos, que apresentavam seus amigos, que apresentavam seus amigos.

Muitas vezes, em sua primeira aproximação, as pessoas se espezinhavam e a polícia era chamada. Mas ele conhecia todo o corpo de polícia. Tudo acabava em um jantar numa pizzaria próxima. De graça, porque ele era amigo do dono.

E era chamado pra festas, e nas festas conhecia todo mundo. E no ônibus conhecia todo mundo. E na sua casa, é, na sua casa também. Nas ruas, nem andava mais, tendo que parar pra cumprimentar todo mundo. E pra lembrar as datas e as preferências de cada um, foi tabulando em livros e HDs, tem hoje uma biblioteca muito completa em casa. Ele até conhece você, acredite. E como ele sofria ao cubo com as mesquinharias de amizades e relacionamentos, mas como ele se divertia. Se divertia e se divertia.

Certa vez perguntaram pra ele o que ele vai fazer quando conhecer todas as pessoas.
- Provavelmente vou me convencer de que elas são tão parecidas comigo, mas tão parecidas, todas elas, que vou achar mais divertido comprar uma cabra. Agora me dê licença, porque preciso visitar 5 mil crianças que estão nascendo hoje. Cada nascimento é um novo contato, é um trabalho sem fim.

 

o carinho de mãe

Adquiri mais dois moradores para a minha cama (que é um território muito disputado no mercado imobiliário dos seres estranhos de pelúcia). Um é o Chaves. Outra é a ovelhosa mais legal da face da Terra, depois da Ludovica. Tão legal que acho que vai ser a substituta do meu Ió nas minhas noites calientes solitárias.

Ao ver minha nova escolha de parceiros, minha mãe declarou, espontaneamente:
- É, antes você dormia com um burro com cara de depressivo. Agora vai mudar para uma ovelha com cara de idiota.

Ela sempre fala mal das coisas com as quais eu passo a noite.

[em breve eu serei expulsa da minha cama pelos meus bichinhos, ela vai ficar pequena demais pra nós 15] a solução vai ser dormir no sofá.

 —————————————-

Quinta-feira, Abril 12, 2007

Jantar cordial

era um jantar na minha casa. Desses que não acontecem todo dia. Chovia muito lá fora, era um presente pra mim. O prato principal era qualquer coisa que parecia comida de desenhos animados. A mesa estava postada daquela maneira que eu gosto, flutuando no teto, ao lado do lustre, onde a Rebeca mais gosta de ficar, pendurada, de cabeça pra baixo, com as tranças dela varrendo o chão.

Walt Disney dominava a conversa, contando algumas de suas idéias com um brilho nos olhos que deixava até mesmo todos os membros do Monty Python calados e respeitosos. O tímido Bill Waterson estava no canto conversando com seu filho, o Calvin, que, mal sabia eu, estava com as alianças no bolso esperando a oportunidade para propor para mim. Ele contaria com a concorrência desleal do Davi, o bíblico ruivo (e de gentil aspecto), músico e que cuidava de ovelhas. Meio que minha alma gêmea, que morreu há mais de 3 mil anos.

Bateram na porta, era o Chaplin, fazendo um comentário ameno sobre a chuva, tirando o chapéu ensopado e jogando no ensopado que a cozinheira preparava. Logo atrás, entravam Roberto Gomez Bolaños e Mark Twain tecendo piadas afiadas sobre o homem que dançava na chuva como um maluco.

Na cozinha, Willy Wonka [o de 1971] cozinhava um pudim de chocolate enquanto discutia algumas teorias com o Beakman.

e eu, eu só olhando.

————————————————-

Terça-feira, Abril 03, 2007

escritos aleatórios porque aleatoriedade é legal e a vida é aleatória

Como assim? - perguntamo-nos nós. Faz mais de um mês que a dona Francine não atualiza esse blog satisfatoriamente. E quando digo satisfatoriamente, digo “com um texto escrito pelas próprias pontas dos dedos dela”. Tem gente que diz que é bom, já que eu escrevo muito (não posso evitar, poder de síntese é um dom para poucos) e só assim eles conseguem ler tudo a tempo. Tem gente que diz que é ruim (como a minha mãe, por exemplo). E tem muita gente, aliás, que não diz nada. E esse é um dos motivos para eu baixar o AI 42 aqui e exterminar o campo dos comentários. Aos antigos comentaristas, meu “sinto muito”. Aos que quiserem comentar daqui pra frente, meu e-mail, minha página de scraps e meu msn estão à disposição, é só seguir a estrada de tijolos amarelos com bolinhas roxas.

Mais de um mês e isso é vergonhoso. O pior é que tive idéias, mas como já disse em alguns pixels mais pra baixo, elas andaram sendo boicotadas por motivos diversos, e foram brutalmente assassinadas. Tenho algum papel jogado aqui pela minha casa com idéias de textos, mas não vou procurá-lo, não agora. Sei que eu ia escrever algo sobre a procura por estágios. Coisa feia, a procura por um estágio. Porque muitos empregadores acreditam que uma pessoa que faz Comunicação Social vai curtir a idéia de passar 10 horas por dia em um escritório anotando recados. O que eles acham é que vão nos enganar escrevendo nomes glamourosos para vagas nonsense no anúncio de estágio. É tudo uma grande balela. Estágio é uma grande conspiração comunista, é isso é que é. Para os que um dia ainda vão começar a procurar uma vaga no maravilhoso mundo do mercado de trabalho, muna-se do dicionário português-estagiês. Em um dos tópicos esse dicionário diz claramente que “elaboração de relatórios” é um nome bonito para ” anotar recados”, e “auxiliar no departamento comercial” nada mais é que “ser uma vendedora de roupas atrás do balcão em alguma loja do Centro”. Isso quando não pedem uma “estagiária de boa aparência para trabalhar em vídeos internos de um hotel. Favor mandar foto.”… Enfim, isso e mais outras peripécias empregatícias talvez fique para um post engraçado em um dia inspirado, porque hoje pelo que estou vendo não estou nem engraçada nem inspirada. Pena.

- sim, eu sou muito chata no msn. Favor não deixar recados beijos obrigada. Por isso fiz ICQ, porque ele é muito mais legal e não tem ninguém online pra me encher o saco.

- não, isso não faz sentido. Mas me lembra outra idéia de post. Abrindo meu ICQ (número antigo, se você quiser relembrar dos velhos tempos comigo me add ae na sua vida 104834900), me deparei com meu About antigo, o que me rendeu momentos de risadas e reflexões. Ele deve datar dos idos de 2001, e me deu uma nostalgia incrível. Abrir meu ICQ, ver os meus dados antigos e ver os vários amigos antigos com nicks antigos me fez mergulhar no passado. Num passado nem tão distante assim, mas que me trouxe umas memórias simpáticas, coisa estranha. E uma sensação arqueológica mais estranha ainda. Vários e vários nicks de pessoas que usavam aquele programa muito melhor e muito mais divertido que o MSN, na época em que não se contava a vida no apelido. Todas elas em vermelho, na barrinha Offline. Os restos mortais de toda uma civilização. Mais ou menos como acessar o Orkut daqui a 10 anos e encontrar as comunidades abandonadas, os Profiles com marcas de mofo e roídos de ratos, com frases e relações que nem existem mais (se é que realmente existiram na época).Tinha vezes em que 30 pessoas ficavam online, num fim de semana movimentado (ou pacato, escolha como quiser), e a gente conversava, e ria, e até desenvolvia crushes (não que seja muito difícil, ok), e esperava ansiosamente ouvir o “Toc toc toc”. Fiquei uma tarde online. Esperei um Toc Toc Toc. Mas todos foram embora. Todas as pessoas que agora nada mais são do que nicks abandonados em um programa que não existe mais. Cascas de nicks vermelhos olhando pra mim.

[Fora isso, só passei pra deixar registrado que "epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do significado de algo. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém "encontrou a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa" do problema. O termo é aplicado quando um pensamento inspirado e iluminante acontece, que parece ser divino em natureza (este é o uso em língua inglesa, principalmente, como na expressão I just had an epiphany, o que indica que ocorreu um pensamento, naquele instante, que foi considerado único e inspirador, de uma natureza quase sobrenatural). Epifania também possui o significado de manifestação ou aparição divina. Diversos personagens históricos, na grande maioria líderes religiosos, filósofos, cientistas, místicos, escritores, teriam tido experiências epifânicas, dentre eles: * Buda * Moisés * Arquimedes (com o célebre grito "eureka", epifania que lhe permitiu formular a lei do empuxo) * Maomé * Jacob Boehme * Friedrich August Kekulé (que descobriu a geometria da molécula de benzeno, ao sonhar com uma cobra engolindo o próprio rabo) * James Joyce". Eu acho que passamos por experiências epifânicas várias vezes, epifaniazinhas que fazem bem, e se estamos abertos a elas, podemos estar prontos pra começar mudanças incríveis. Mas existem também as Epifanias de fato, momentos raros em que tudo se faz claro. E vou te contar... acho que vou até usar óculos escuros, daqueles de esqui, de tão claras que as coisas estão ficando por aqui.]

a essa altura você notou que não adiantou muita coisa eu ter atualizado meu blog com esse texto confuso e sem charme. Observe eu não me importar.