e nessas voltas eu vou
Saturday, May 24th, 2008“Tattoos of memories and dead skin on trial
For what it’s worth it was worth all the whileIt’s something unpredictable, but in the end it’s right.
I hope you had the time of your life”.Green Day
a gente é mesmo desvivente, né? Aprende as coisas, acorda uma manhãzinha com uma epifania do tamanho de um trem, levanta a cabeça sorridente, falando “já saquei tudo de tudo, agora eu vou, tá fácil”, pra desaprender tudo no próximo ano, e ter que aprender tudo de novo. Acho que é assim mesmo, tem que ter graça!
Perdões pelo post choramingas de hoje, é que precisava transbordar isso pra vocês: meus pais vão se mudar da casa que eu morei desde os meus 9 anos (da rua que eu morei desde os meus 4 anos), e passei a tarde com o nariz empoeirado empacotando e encontrando coisas antigas.
E dentre embalagens de pirulitos das Spice Girls, álbuns de figurinhas da Disney, diários escritos por uma mini-Francine de 7 anos de idade, encontrei pedaços de gente. Não no sentido literal, mórbido e bizarro da coisa, embora fosse interessante, quero dizer…. mas pedaços abstratos de pessoas e sentimentos que passaram por mim, ou que ainda estão-mas-não-estão, ou que nunca mais voltarão ou que nunca mais sairão-mas-sairão.
Foram umas horas de esquisitice, sentada no meu quarto que já era ex mas que agora vai ser mais ex ainda, revirando folhas e mais folhas. Do prézinho ao ano passado, tem muita coisa lá. Muita gente preservada lá. Partes de coisas que não fazem mais o menor sentido, coisas que não mereciam mais estar lá. Ou coisas que não fazem mais sentido mas mereciam estar lá ainda assim. Fases, fases, fases. O que assusta, quando eu sei que tudo o que eu mais acredito hoje pode ser só mais uma fase, que um dia vai virar um papel rabiscado, que vai ser loucamente rasgado por mim na próxima limpeza da caixa de lembranças.
Minha tarde foi uma leitura de “como se faz uma Francine” em uma caixa de cartas, um guarda roupa e uma casa já feita de peles mortas das emoções do passado. Descobri que esse “como se faz” é um passo a passo meio esquisito, meio até não-emocionante, uma linguagem “manual de instruções” demais. O que me deixou apreensiva é que ainda assim não aprendi a fazer. Sempre erro o ponto.
Percebi então que tou ausente da vida de muita gente. Tantos cartões e carinhos recebidos, alguns nunca respondidos, vários esquecidos. Queria escrever mais cartas, mandar mais bilhetes sem sentido, ser um pouco mais offline e muito mais presente. E muito mais divertida do que a vida pede.
O ruim mesmo é quando eu vejo que a culpa é minha. O real mesmo é quando eu vejo que a culpa muitas vezes é também das circunstâncias.
Circunstâncias, pra mim, são uns tentáculos meio gosmentos e negros com uns olhos cínicos e que nos carregam por quase todo dia. Elas são feitas de um material meio amorfo que só fica visível aos nossos olhos quando olhamos pra trás. Elas têm uma banda mexicana chamada Las Circunstanzas, se apresentam em uns bares andaluzes e pagam bebida pra todo mundo, pra pegar os humanos desprevenidos.
Saudades, pra mim, é um ventríloquo de madeira mentiroso que vive dentro da gente repetindo coisas que já foram (qualquer uma, pode até ser a festa de ontem) usando adjetivos muito melhores do que os que existem hoje.
acho que é isso. desculpa, obrigada, e um chuvoso tchau para o sobrado amarelo.
“Dos cegos do castelo me despeço e vou
A pé até encontrar
Um caminho, o lugar
Pro que eu sou”
Titãs