E desencontros.
Saturday, April 19th, 2008(16 de Setembro de 2006)
Dorinha o esperava no portão todos os dias. Sorria, feliz, quando o encontrava. Colocava sua roupa favorita. Quando ele atrasava, corria para a cozinha em busca de seu pote de Lexotans. Quando o telefone tocava, torcia para que fosse ele avisando que hoje estaria de folga, e chegaria em casa com as flores, que tinham até um vaso vazio pronto para recebê-las. Mas ele não a conhecia.
Stella fazia uma tatuagem para cada homem com quem se relacionava. Quanto mais intenso o relacionamento, maior era o tamanho da tatuagem. Os espaços em branco iam ficando cada vez mais escassos. É que quando Stella tinha doze anos, uma cartomante havia lhe contado que o último nome, que seria tatuado no último espaço em branco de seu corpo, seria o seu verdadeiro amor. Aos 98 anos, ela tatuou “Amor só de mãe” e morreu de overdose.
Um raio caiu na Igreja no dia do casamento. O Padre sorriu. Eles iriam se separar daí duas semanas de qualquer forma.
Marta tinha um jogo divertido. Quando se sentia entediada, escolhia alguém para se apaixonar. A regra era não trocar palavras, em hipótese alguma, com o sujeito da paixão. A partir do momento em que travassem conhecimento, a brincadeira acabava e Marta partia para outra. Marta compra ração para seus 50 gatos desde já. Mas tem medo de que os felinos travem conhecimento com ela.
Todas as noites Fernanda orava antes de dormir, pedindo um príncipe que gostasse de All Star e usasse moicano. A dois quarteirões dali, um menino de Allstar e moicano pedia, todas as noites, por um sapo que gostasse de tocar guitarra. Ele colecionava anfíbios músicos e não tinha coração. Só rãs.
Ele não se importava de ter sido trocado por outra mulher. Tudo bem, não tinha como competir. Ela era ruiva. É que levar todos os seus CDs do Jethro Tull também já era demais.
Clara era uma atéia fanática, e Mauro um evangélico convicto. Um dia desistiram de trocar farpas e resolveram trocar alianças. Os fanatismos, amenizados, deram origem a uma prole de cinco filhos: um católico, um umbandista, um espírita, um judeu e um muçulmano. O Natal era uma festa.
Dorothy estava de casamento marcado. Mas fugiu no dia seguinte com uma joaninha.
Se casaram
Sofia parou diante de um túmulo que chamou sua atenção. Olhando para aquele nome ela percebeu, naquele instante, que o sentimento maior que ela tanto procurava sempre esteve ali. 1850-1923. Seus dias de procura tinham terminado. Saiu do cemitério disposta a descobrir mais sobre a vida daquela que foi sua alma gêmea, mas que tinha chegado aqui cedo demais.
Sempre se encontravam vindo de direções contrárias. Ele saindo, ela entrando. E vice-versa. Quando quiseram fazer o caminho inverso, ele entrava e ela saía. Já estava se tornando uma estupidez sem fim. Resolveram, então, andar de ré. Funcionou.
Paulo e Rita se viam todo dia. Sabiam da vida inteira um do outro. Patrocinados pelo Orkut. Mas nenhum era capaz de entabular uma conversação. Apresentados por um amigo em comum, Rita se fingiu de morta e Paulo fingiu precisar sair para comprar selos exóticos para sua coleção inexistente. E viveram infelizes para sempre.
Andavam abraçados, pra cima e pra baixo. Era um casal que se apoiava. Uma belezinha. Um dia ele foi comprar cigarros, ela se desequilibrou, caiu e morreu.
Malvira era uma mulher vivida e experimentada. Mais experimentada que vivida. Casava-se todo começo de mês e enterrava um marido todo fim de mês. Bem, “enterrava” não é a melhor expressão. Quando Malvira morreu, a diversão de seus netos era levar os amiguinhos para conhecerem a sala com os 247 maridos empalhados da boa senhora.