Archive for the ‘ônibus’ Category

vale a pena contar.

Saturday, August 23rd, 2008

voltando do hospital. Correu tudo bem, as crianças vêem seu nariz vermelho e se animam e você ajuda a que elas se animem mais, e você sai mais animado e com a sensação de que, mesmo cinza, o dia está cor de laranja.

Porque sua semana foi boa, depois de uma sucessão de semanas mal-sucedidas.

Boa não. Tão boa!

Você sorri e se acomoda no ônibus cor de laranja. E quando o velhinho vai descer, ele fala Senhoras e Senhores.

Senhoras e Senhores quem fala é quem vai pedir dinheiro no ônibus. Mas o apresentador do circo também fala Senhoras e Senhores. E o velhinho está bem vestido, ninguém fala Senhoras e Senhores bem vestido no ônibus.

Um discurso vem depois do Senhoras e Senhores. Você já pensa na sua carteira e nas suas moedas pesadas, mas o discurso não pede moeda pesada.

“Senhoras e Senhores, vamos agradecer o nosso motorista e o nosso cobrador, porque eles trouxeram todo mundo são e salvo, até aqui”.

Deve ser bom, pra um motorista, ouvir um Obrigado e não um Vai Descer.

Você aplaude o velhinho e nem vê se mais alguém aplaudiu. Foi o momento dele, foi o momento do motorista e foi o momento do cobrador. E os três momentos pediam palmas.

Olha pra janela e segue, num dia cor de laranja.

Num dia cor de laranja
A banda só toca o que o público manda
E se você estiver triste
A banda faz a música e você canta

Num dia cor de laranja
As pessoas são doces e a chuva é de Fanta
E se a saudade bater
A banda toca e os mortos se levantam

Tenha um dia cor de laranja
É o que todos nós te desejamos

Tenha um dia cor de laranja
É o que todos nós te desejamos

[Bazar Pamplona]

post cíclico (sobre rodas)

Monday, July 7th, 2008

ônibus me inspira e me entedia. daí fiz um desenho em homenagem ao que eu estava vivendo no momento.

a reação das pessoas a esse desenho foi algo próximo do “…”, mas me apeguei a ele. e ele veio morar aqui:

e o post continua aqui.

buzina em stacatto

Wednesday, April 9th, 2008

O trânsito de São Paulo é caso de exército. Acho engraçado que os noticiários tratam a chuva como monstro devorador de almas, mas o trânsito, que, ao lado da poluição, é o fator mais caótico desta cidade, nem sempre é alardeado. Porque é rotina. Eba. Tanto é que tem até uma rádio, a SulAmérica, que só fala de trânsito, tododiaodiatodo. Daí que ontem a Déia (sem link!) surgiu com umas idéias fantásticas a respeito dessa rádio. Idéias absolutamente blogáveis. Mas como ela não tem blog (sim, eu tenho amigos que não têm blogs), peço licença pra transmiti-las aqui:

Fran? Fran, meu, cadê você? Tá dormindo abraçada de conchinha com um mendigo? Meu, Fran, eu tenho umas idéias muito doidas de manhã quando tou indo trabalhar ouvindo Rádio SulAmérica”:

Todas as manhãs o radialista lista as vias mais congestionadas da Cidade.

‘Vamos agora ao ranking das vias mais congestionadas de São Paulo”

Todas as manhãs, a Déia imagina uma torcida organizada curtindo esse ranking.

“3. Radial Leste

2. Bandeirantes

1. Marginal Pinheiros”

E aí entra a galera presa no trânsito delirando na Marginal. No mesmo minuto todos os motoristas vão às alturas numa comemoração à colocação:

“Aeeeee! Uhuuuul! É nóis! CHUPA RADIAL!”

e começando o dia de um jeito muito mais feliz.

Seria muito interativo também organizar notas pra essas filas de carros também.

“Rebouças. Alegoria. Nota: 10″.

E a Déia foi além. Está organizando um call to action para as pessoas ligarem para a Transamérica e apoiarem a seguinte idéia:

“Vamos organizar uma ação de protesto legal. O radialista diz: ‘galera da Marginal Tietê, todo mundo a postos, quem estiver ouvindo esse sinal, dê uma buzinada curtinha!’. Coisa de meio segundo. O resultado? Quem está ouvindo a rádio se diverte, enquanto quem não está, vai ficar intrigado pelo resto do dia.”

“- Ô Siqueira… acho que tou ficando louco. Você também teve a impressão de ouvir um ‘bibizinho’? Todo mundo buzinando ao mesmo tempo?

- Que isso, Almeida, tá mal, hein? Não ouvi nada não (haha ouvi sim).”

Pensem nisso, ok?

O Homem que Socializava Demais

Friday, March 28th, 2008

Quinta-feira, Abril 19, 2007

Aconteceu num dia, foi de repente, assim tão de repente que parecia até coisa da Clarice Lispector. Ele tinha acordado meio Calvino aquele dia, e sabia que alguma coisa de muito inconveniente resultaria desse fato. Foi mais ou menos (um pouco mais do que menos) quando ele entrou no ônibus e viu aquele senhor puxando a cordinha pra avisar o motorista. Aquela cordinha, aquela cordinha puída e insignificante foi o estopim para o início do momento epifânico, que se fosse escrito pela Clarice daria meio que um livro inteiro, daqueles bem cheios de aaaahs e oooooohs e inclusive protagonizaria uma cena de luxúria e um suicídio, ao mesmo tempo (teria até gente se enforcando na cordinha, coisa feia de se ver). Mas como não sou Clarice (e agradeço aos céus a cada dia por isso), só vou dizer que

Oh - pensou o homem em um pensamento monossilábico. E ele olhou em volta e viu quanta gente tinha em volta dele. E ele percebeu que todas as pessoas eram pessoas. E que todas as pessoas (que eram pessoas) tinham algo a dizer pra ele. Que se ele tivesse nascido no bairro vizinho, provavelmente seria o melhor amigo do motorista do ônibus, e que nada ou pouca coisa impediria de que aquela simpática velhota babando no banco de trás fosse sua sogra.

Então ele pensou em um universo em crise em que ele conhecesse todo mundo. Seria tão mais fácil, e ele teria as chances e as oportunidades em dobro, em triplo, em quádruplo, em pentágonuplo. Só conhecendo todas as pessoas do mundo ele seria capaz de saber tudo o que a vida poderia lhe oferecer. Ele não imaginaria mais como seria seu futuro se ele fosse amigo da menina de óculos que andava na calçada do outro lado da avenida. Era só chegar lá, e fazer o futuro acontecer fora da imaginação dele. E ele começou sua estratégia. Entrava e dava oi. Pra todos. Cumprimentava com beijinho, se apresentava, dava cartão de visita. No começo, falava do tempo, comentava sobre a política e o futebol, mas a prática foi tamanha que ele era capaz de saber o assunto preferido de seu mais novo conhecido antes mesmo de cumprimentá-lo. E foi. E o trabalho foi ficando cada vez mais prático. Quanto mais gente ele conhecia, mais eles lhe apresentavam seus amigos, que apresentavam seus amigos, que apresentavam seus amigos.

Muitas vezes, em sua primeira aproximação, as pessoas se espezinhavam e a polícia era chamada. Mas ele conhecia todo o corpo de polícia. Tudo acabava em um jantar numa pizzaria próxima. De graça, porque ele era amigo do dono.

E era chamado pra festas, e nas festas conhecia todo mundo. E no ônibus conhecia todo mundo. E na sua casa, é, na sua casa também. Nas ruas, nem andava mais, tendo que parar pra cumprimentar todo mundo. E pra lembrar as datas e as preferências de cada um, foi tabulando em livros e HDs, tem hoje uma biblioteca muito completa em casa. Ele até conhece você, acredite. E como ele sofria ao cubo com as mesquinharias de amizades e relacionamentos, mas como ele se divertia. Se divertia e se divertia.

Certa vez perguntaram pra ele o que ele vai fazer quando conhecer todas as pessoas.
- Provavelmente vou me convencer de que elas são tão parecidas comigo, mas tão parecidas, todas elas, que vou achar mais divertido comprar uma cabra. Agora me dê licença, porque preciso visitar 5 mil crianças que estão nascendo hoje. Cada nascimento é um novo contato, é um trabalho sem fim.