gregor samsa e eu
Tuesday, December 23rd, 2008Cheguei em casa, semi-férias. Cansada, voltei a pé do trabalho pra aproveitar a claridade do dia e os dias cheios de possibilidades à minha frente. Com calor, só sonhava em tomar um bom banho, esquentar uma macarronada, me refestelar no meu colchão e assistir ao meu novo DVD O Melhor de Terry Gilliam (bom demais, bom demais) acompanhada da minha Coca Zero.
Até que.
No meio do processo pré-banho, já desprotegida (um eufemismo), olho para a lâmpada do banheiro e uma vespa me encara.
Sim, vespa. Com seus olhos multifacetados, suas antenas de alguns metros e suas 293 patas, todos olhando pra mim. A verdade é que, menina de apartamento que sou, eu tenho mais medo de insetos do que de gente. Levem meu celular mas não me aferroem. De barata eu não tenho medo. Tenho nojinho, claro. Mas não é um pavor verdadeiro como o que tenho de qualquer invertebrado que possa me machucar. Como o que eu senti pela vespa em questão.
E não faço idéia de como lidar com esses bichos. Uma vez, uma moça de sítio me disse que esse tipo de inseto do mal só ataca você se você atacar primeiro. Então resolvi seguir a sabedoria popular e ficar parada. Era isso. Era como lutar com um tiranossauro. Era só eu não me mover. A essa altura, meu banho já tinha sido sabotado. Não ia conseguir experimentar a refrescante sensação de bem estar com uma vespa daquelas me espreitando, só esperando a primeira espuma no olho pra me encher de picadas doloridas.
Postei-me então na porta do banheiro, de Allstar na mão. E lá ia a vespa. Da lâmpada pra cima do armário, do armário pra lâmpada. Depois de alguns rasantes que me fizeram gelar (e sair correndo gritando pelo apartamento, sem olhar para trás, confesso), resolvi fazer algo que me deixasse mais segura. Coloquei um sobretudo pra ficar mais protegida e evitar essas corridas desesperadas a cada vez que a vespa se aproximasse. O que me deixou parecida com aqueles velhos tarados exibicionistas, em algum nível.
Embora com menos metros quadrados de pele expostos, a luta continuava parecendo desigual. Incrível como 2 centímetros parecem muito mais quando você tem asas, antenas gigantes e um zumbido atordoante. E pela próxima hora e meia (1 hora e meia e um chuveiro semi ligado ainda, sim), continuei na minha estratégia. Ficava parada na porta do banheiro, acompanhando cada movimento do meu predador. Quando ele se aproximava, eu tentava uma allstarzada e saía correndo. A cada minuto voltava para o guarda-roupa para me proteger um pouco mais.
No fim da batalha, eu vestia um sobretudo, um cachecol cobrindo a cabeça, luvas, pantufas e óculos escuros. Era quase uma versão pouco mais desalinhada da Audrey Hepburn. Com um rodo em uma mão e o Allstar ainda na outra, ainda assim não me animava a vencer a morte alada. Tentei usar o secador de cabelo, arrastei um banco para ficar mais alta, mas nada adiantou. Ela… bem, ela continuava lá, seminua, com aquela indecente malha listrada.
E em alguns momentos o pânico atacava ainda mais feroz que a vespa. Eram os momentos em que a vespa sumia. Porque tudo está ok enquanto você sabe onde ela está. Posso passar meses de guarda encarando o inseto, fingindo coragem. Nisso, os óculos escuros ajudaram também, já que a coisa gostava muito de ficar perto da luz. Mas quando ele desaparece, você perde totalmente o controle. Ele pode estar em qualquer lugar. No teto, do seu lado, dentro do seu sobretudo. E morar sozinha nessas horas não ajuda. Não tem ninguém nem pra revezar com você. Ou eu matava o bicho ou fechava meu banheiro e ficava sem tomar banho e sem fazer xixi até amanhã. Vai ver foi essa perspectiva que me fez tomar uma decisão precipitada.
Deixa eu ser mais específica. No fim da batalha, eu vestia um sobretudo, um cachecol cobrindo a cabeça, luvas, pantufas e óculos escuros. E chorava.
Era quase uma cruza da Audrey Hepburn com a Amy Winehouse.
Então peguei meu celular e liguei pros meus pais. Não sei exatamente que tipo de ajuda eu esperava deles. Que eles começassem a gritar bem alto para espantar a vespa? Não. Talvez só quisesse ouvir a voz deles e constatar que era voz humana e não um zumbido, e que eu não estava em um daqueles contos horrorosos do Stephen King (horrorosos de mal escritos, não de assustadores). Ou, o mais óbvio: mães sabem tudo. Eles não deixam você ser mãe se não souber consertar tudo. Claro que minha mãe riu. Bastante. Claro que minha mãe soube me ajudar: não tem veneno, jogue Bom Ar. [Nota: Bom Ar é uma coisa do mal que minha mãe insiste em comprar aqui pra minha casa, porque ela acha que aquele cheiro horrível de "flores do campo" é agradável a suas narinas]. Eu prefiro a morte. No caso, a da vespa.
E jogar Bom Ar foi o que fiz. Loucamente. Insanamente. Por todos os anos que reneguei esse produto. Em todos os cantos (note que eu não sabia onde estava a vespa, era um daqueles momentos de pânico absoluto), em tudo, em todos. E, enquanto falava com minha mãe no telefone, a vespa apareceu no chão do box, completamente embriagada de Bom Ar, aquela sem-vergonha. Nunca esmigalhei tanto um inseto quanto desta vez. Foram tantos golpes de rodo, que ao final eu fiquei muito intrigada se realmente tinha matado a vespa, ou se aquilo era um pernilongo. Não quis ser má. Juro que rezei para que ela voasse pela janela. Mas acho que não era o destino manifesto da vespa o de ser livre mais uma vez.
Ainda assim fiquei encanadíssima. Sabe aquele episódio do Chaves em que perdem escorpiões e agulhas pela vila inteira e todo mundo fica impressionado, sentindo ferroadas toda hora? Sou eu. Não tenho certeza se era ela que eu matei. Me sinto em um daqueles filmes de terror adolescentes dos anos 90. No meio do banho, meu celular começou a tocar no vibracall e eu olhava apreensivamente para o ralo do chuveiro, achando que o barulho vinha de lá. Que era a vespa. Trazendo amigas. Ou vai ver ela ainda está viva aqui em casa. Vai ver ela vive em mim. Vai ver é melhor eu tomar calmante antes de ir dormir.
Cada palavra desse post é real. Tirando as 293 patas, não há um dedo de exagero aqui. O cheiro de flores do campo pelo meu apê não me deixa mentir.




só quero deixar bem claro que isso não é de deus.