Archive for the ‘dia-a-dia’ Category

cuscuz de panela

Monday, July 7th, 2008

[Brigadeiro de panela é uma contravenção. É o grito de independência de toda uma geração.

é queimar todo o espírito conservador que dormia escondido dentro de cada uma daquelas bolinhas de brigadeiro enroladas em granulados terríveis e dar a carta de alforria para o melhor doce achocolatado já criado nos mundos.

Lembro como eu me sentia a pessoa mais rebelde da vizinhança quando fiz meu primeiro brigadeiro, olhei para os lados e declarei: vou comer direto na panela, eu e minhas amigas... adolescentes. O olhar de espanto da minha mãe foi um misto de "q" com "isso tudo é preguiça de enrolar brigadeiro?".

Sim, mamãe. Era preguiça. Era o doce ato anarquista da minha geração. E eu acredito nele até hoje.

Acontece que agora o brigadeiro de colher já tá virando item de restaurante chique... conseguiram pegar a invenção mais libertadora dos últimos anos e aprisioná-la novamente, em cardápios tontos de restaurantes quadrados. O brigadeiro de panela, meu caro, aquele seu primeiro ato de rebeldia alimentar, vai virar item de tiozão. E seus filhos vão se sentir os seres mais rebeldes do mundo ao sentar diante de uma mesa e enrolar os brigadeiros em chocolate granulado. Um a um. Muito mais cool.]

Divagações à parte, quero compartilhar com você uma receita que acabei de criar. Pois que moro sozinha, e como tal tenho uma geladeira que faz jus à minha situação: a geladeira vazia, e o congelador, este sim, cheinho de tupperwares que minha mamãe traz pra mim ocasionalmente (coisa boa que só vendo). Acontece que eu e ela chegamos a um acordo, por uma certa obsessão minha e praticidade e compreensão da minha progenitora: há cerca de 4 anos a minha janta, com algumas variações, se compõe basicamente de strogonoff.

Eu não reclamo, afinal ele continua sendo meu prato preferido ainda assim. E é a coisa mais fácil do mundo tirar um potinho do congelador, botar no microondas, esperar apitar e pronto. Um banquete. E daí que toda essa intimidade com o Sr. Strogonoff me transformou numa especialista no prato. Como de todos os jeitos: com arroz, sem arroz, com colher, com pão, só com batata palha, com macarrão.

Mas hoje, meus caros, eu ousei. Minha mãe provavelmente me lançaria um olhar semelhante ao “isso tudo é preguiça de enrolar brigadeiro?”, mas essa sou eu, uma rebelde (…).

Eu criei a contravenção do strogonoff. E o transformei num cuscuz.

Funciona mais ou menos assim

:: Receita de cuscuz de strogonoff

Ingredientes

meio pote de strogonoff congelado

um punhado de farinha de mandioca

um punhado um pouco menor de farinha de milho (só pra experimentar a diferença das duas)

meia lata de milho em conserva

queijo ralado que sobrou na geladeira

panela

Modo de fazer

Não encontre arroz no seu armário.

Não queira descongelar os pães que moram no congelador há mais tempo que você pode se lembrar.

Abra a geladeira e os armários e coloque tudo o que tiver lá em cima da pia.

Coloque o strogonoff no microondas. Retire quando apitar.

Jogue o strogonoff na panela. Acrescente a farinha de mandioca, a farinha de milho, a farinha de trigo, o milho em si e o queijo ralado.

Misture tudo na panela até formar uma massa homogênea.

Sirva-se enquanto não esfriar.

Rendimento: uma panela.

esse congelador já abrigou strogonoff suficiente para alimentar a mim e a minha família durante um possível inverno nuclear do pós-guerra.

post cíclico (sobre rodas)

Monday, July 7th, 2008

ônibus me inspira e me entedia. daí fiz um desenho em homenagem ao que eu estava vivendo no momento.

a reação das pessoas a esse desenho foi algo próximo do “…”, mas me apeguei a ele. e ele veio morar aqui:

e o post continua aqui.

sopa de cachecóis

Tuesday, May 27th, 2008

Tem um restaurante agradávelzinho aqui perto que me envia o cardápio do dia todo dia por e-mail. Mais legal que os pratos saborosos (são um tico apetitosos) é a criatividade da moça que escreve os nomes deles.

É sempre um novo desafio adivinhar o que você vai almoçar, ao saber que lá no restaurante, aguardando você, estão pratos como

- Picadinho diferente

(diferente de tudo, diferente de você, ele não se preocupa com o que os outros pensam. Pegaram um indie na Paulista de sábado e picaram, aimeudeus, Picadinho diferente is people!)

- talharim ao molho aromático

(macarrão com molho de incenso)

- caneloni invertido ao curry

(caneloni invertido: canelones posicionados de ponta cabeça na travessa? ou canelones de presunto recheados de massa? ou é um erro de digitação, e queriam dizer canelonis introvertidos?)

- Purê surpresa

(um purê surpresa deve conter uma moça que sai de dentro dele com pompons, cantando “Hello my hometown gal” ao ser colocado no seu prato)

- lagarto delicioso

(o delicioso tenta justificar o lagarto. De qualquer forma é uma antítese)

- Taças miragem

(um tipo de sobremesa que você só vê de longe. Parece um pavê de Ferrero Rocher com Toblerone, mas quando você chega perto, ele não está mais lá)

- Ensopado de inverno

(um cozido de polainas, boinas e casacos xadrez, um churrasco de boneco de neve)

Bom almoço.

a incrível terra dos shuffles auto-suficientes

Monday, May 19th, 2008

Shuffles, shuffles têm vida. São bichinhos de estimação conceituais que a gente cria e alimenta ao longo dos anos. Tem de vários tipos e tamanhos, tem até os analógicos, mas os digitais são os piores.

É a gente que adestra a criatura, ensina a ela a distinção entre o bem e o mal, alimenta a menina, mas ela pode ser ingrata.

O grave é que ela te conhece muito bem, mais do que ninguém jamais vai conhecer. É a proximidade dos dendritos cerebrais e auditivos, deve ser. E ela sabe dos poderes psíquicos que tem, levando aquele monte de vozes cantantes diretamente para a sua mente.

O shuffle do meu ITunes do trabalho anda numa fase meio bi-curious, e hoje só está tocando músicas cheias de glamour e paetês. O do meu Media Player de casa só procura as músicas que minha irmã gravou nele há quase 1 ano, e de vez em quando pára de tocar sem aviso prévio. Ele definitivamente não gosta de mim, só dela. Aposto que tem um affair com algum bicho grilo uspiano. O do meu mp3 rosa já é um caso de amor tórrido. Ele sabe exatamente como estou me sentindo, o que quero e o que não quero. Por 3 vezes, chegou a adivinhar qual a música que eu mais queria que tocasse no momento exato, é muito compreensivo. Já o meu mp3 antigo era um pouco assustador. Pouco antes de suspirar sua última canção, definhava, cada dia mais obsessivo, repetindo as mesmas faixas enlouquecedoramente.

Já houve um caso, na Alemanha Oriental, de um Shuffle que esquartejou uma família inteira, e saiu aos saltos do apartamento, em busca de alguém que preferisse Jazz.

(texto inspirado em uma conversa com o Luciano, gerador de inspiração aleatória infinita)

6 de julho de 2006

Saturday, April 19th, 2008

Aí eu e a mamãe fomos almoçar, enquanto meu pai e minha irmã escalavam umas pedras (essas coisas de gente metida a Rei das Selvas). E ela - claro, ELA - inventou de pedir uma saladinha de entrada pra nós duas. Não é que eu não goste de salada. Eu só não gosto de nada or ninguém que seja verde e nascido em uma horta. Na verdade nem precisa ser verde. Não sou fã de hortaliças de modo geral. Frutas tudo bem. Eu não bebo sucos, mas frutas me trazem felicidade. Já verduras e legumes… eu acredito que a maioria delas não foi feita para o homem comer. Mas o homem, egoísta e mesquinho como ele só, achou que todas aquelas coisas brotando no mato eram pra ele. Aí deu no que deu: aquele prato de salada, todo bonitinho. Rabanetes picadinhos, cenourinha ralada, alface com dois charmosos tomatinhos-cereja em cima, e tomate. Muito tomate.

Olhei para o prato. Olhei pra minha mãe. O prato olhou pra mim. E ele não queria ser meu amigo. Quando minha querida progenitora disse “se você quer mesmo fazer regime, o seu almoço deveria ser isso e um frango grelhado”, encarei aquilo como uma afronta e resolvi ir em frente. Passei uns quinze minutos jogando óleo de oliva (e misturando a salada), sal (mistura) e limão (mistura mais um pouco). Quando tudo parecia perfeitamente temperado, repeti a operação, pra ganhar mais tempo. Levei os primeiros frutos da terra à boca. Qual não foi meu desespero quando notei que todo aquele tempero não serviu de nada. O rabanete continuava com aquele maldito gosto de rabanete e assim concomitantemente. Então lembrei da cebola, aquele tempero perfeito que me ajuda sempre que preciso dele. Pedi cebola, mas no restaurante da pousada não tinha cebola. Agora, com a mente mais clara, acho que foi uma piada de mau gosto da cozinheira, que estava era escondida em algum lugar rindo loucamente do meu suplício.

Não sei se o problema era eu, a salada ou o tempero, mas minha aflição crescia quando eu notava que o sal não salgava (só podia ser farinha), o limão adocicava e o óleo de oliva era daqueles inodoros, incolores e insípidos. Joguei sal nos tomates cereja. Engoli um por um. Na minha boca eles pareciam exatamente olhos humanos. E eram doces. Apelei para o alface, uma das poucas coisas naturais que são digeridas pelo meu organismo tão doentiamente urbano. Ufa. Agora só faltava a cenoura, os tomates (eram muitos tomates) e os rabanetes. Fechei meus olhos e abri depois de um minuto, na esperança de que eles desaparecessem. Me fingi de morta. E nada. Enquanto isso, ao meu lado, cada garfada voraz da minha mãe era uma garfada no meu coração.

Se ao menos tivesse cebola…

coisas coisadas

Thursday, April 17th, 2008

+ acordei muito tentada a fazer um Ferris Bueller Day. Mas a Dona Consciência falou mais alto, e resolvi fazer meio Ferris Bueller Day, sem comparecer ao meu encontro diário com o Cásper.

+ daí cheguei e tava passando O Casamento Grego, e revi e cheguei à conclusão de que o roteiro foi livremente inspirado na minha vida. É a caricatura mais perfeita da minha família e suas conseqüências. :D

+ meu computador tinha feito assim ó: puf-puf. Daí meus pais paitrocinaram seu conserto, e os geeks que o consertaram colocaram 1 Giga a mais de alguma coisa mágica que deixou meu computador insanamente mais rápido. Parece que ele tomou café. Estou tendo orgasmos informáticos enquanto uso isso aqui. Mudou algumas lógicas da minha vida, estou inclusive falando mais rápido com as pessoas, rápidorápidorápido. Não no MSN, na vida real. Parece que eu tomei café com guaraná pra me animar.

buzina em stacatto

Wednesday, April 9th, 2008

O trânsito de São Paulo é caso de exército. Acho engraçado que os noticiários tratam a chuva como monstro devorador de almas, mas o trânsito, que, ao lado da poluição, é o fator mais caótico desta cidade, nem sempre é alardeado. Porque é rotina. Eba. Tanto é que tem até uma rádio, a SulAmérica, que só fala de trânsito, tododiaodiatodo. Daí que ontem a Déia (sem link!) surgiu com umas idéias fantásticas a respeito dessa rádio. Idéias absolutamente blogáveis. Mas como ela não tem blog (sim, eu tenho amigos que não têm blogs), peço licença pra transmiti-las aqui:

Fran? Fran, meu, cadê você? Tá dormindo abraçada de conchinha com um mendigo? Meu, Fran, eu tenho umas idéias muito doidas de manhã quando tou indo trabalhar ouvindo Rádio SulAmérica”:

Todas as manhãs o radialista lista as vias mais congestionadas da Cidade.

‘Vamos agora ao ranking das vias mais congestionadas de São Paulo”

Todas as manhãs, a Déia imagina uma torcida organizada curtindo esse ranking.

“3. Radial Leste

2. Bandeirantes

1. Marginal Pinheiros”

E aí entra a galera presa no trânsito delirando na Marginal. No mesmo minuto todos os motoristas vão às alturas numa comemoração à colocação:

“Aeeeee! Uhuuuul! É nóis! CHUPA RADIAL!”

e começando o dia de um jeito muito mais feliz.

Seria muito interativo também organizar notas pra essas filas de carros também.

“Rebouças. Alegoria. Nota: 10″.

E a Déia foi além. Está organizando um call to action para as pessoas ligarem para a Transamérica e apoiarem a seguinte idéia:

“Vamos organizar uma ação de protesto legal. O radialista diz: ‘galera da Marginal Tietê, todo mundo a postos, quem estiver ouvindo esse sinal, dê uma buzinada curtinha!’. Coisa de meio segundo. O resultado? Quem está ouvindo a rádio se diverte, enquanto quem não está, vai ficar intrigado pelo resto do dia.”

“- Ô Siqueira… acho que tou ficando louco. Você também teve a impressão de ouvir um ‘bibizinho’? Todo mundo buzinando ao mesmo tempo?

- Que isso, Almeida, tá mal, hein? Não ouvi nada não (haha ouvi sim).”

Pensem nisso, ok?