Eu amo São Paulo. Por incrível que pareça. Ano passado eu não gostava, mas o tempo me fez gostar cada vez mais dessa quarta maior cidade do mundo, por vários e vários e vários motivos. Minhas reclamações são só contra a poluição, o trânsito e… a umidade relativa do ar. Porque aqui simplesmente chove quase que tanto quanto no Sertão.
Ok, ok, eu nasci e cresci em uma cidade litorânea, e isso explica tudo. Em Santos realmente chove. Não com três gotas infelizes que aparecem só pra dizer “olhem só pra mim, somos três gotas, vamos chover durante cinco minutos só pra assustar vocês”, igual acontece aqui em Sampa. Terra da Garoa??!! Em um ano aqui, acho que só vi garoa umas 3 vezes. E olhe lá.
É que eu gosto de chuva. Não é o melhor tempo para se pegar ônibus e tudo mais, mas aquele barulhinho de água caindo do céu, as gotas nos vidros das janelas e todo o simbolismo de renovação, bênção e confirmação que chuva tem me deixa muito de bem com a vida.
Agora imagine só meu desespero ao aportar aqui e perceber que chuva aqui é quase que um milagre de Natal. E, pior, quando chove, é um toró legal, mas que dura… o que? No máximo duas horas, se eu for muito otimista. Muito diferente de lá, na terrinha litorânea, onde chove bastante. Tem vezes que chega a chover durante duas semanas seguidas, para minha grande felicidade.
O pior mesmo é ver as reações dos paulistanos em relação à chuva. É só umas gotas começarem a cair, que é um tal de gente correndo e se esmagando de um lado para o outro, como se o mundo fosse acabar a qualquer instante, e o Apocalipse estivesse em seus calcanhares. Ora pois, devo avisá-lo, meu caro amigo fugitivo, que mesmo que seja uma chuva forte, normalmente o máximo que pode acontecer com vossa senhoria se você entrar nela é SE MOLHAR. Nada relacionado a membros decepados, perda da alma ou morte súbita, como as corridas desesperadas dos paulistanos com medo de chuva demonstram. Queridos, aquilo lá caindo do céu não são bolotas de lava, nem setas inflamadas do demo, é CHUVA. Chuva ácida, muito provavelmente, mas chuva. Aquela coisa gostosa que faz bem, que lava a alma, e que inspira.
Aí você abre a janela do ônibus para sair o cheiro de caninos molhados de lá de dentro e todo mundo vira pra você com cara de “ela abriu a janela. Ela vai deixar o mal líquido entrar em contato conosco! A morte nos aguarda com grandes dentes afiados! QUEIMEM A GAROTA COM A BOINA!”. Aí você passa em frente às estações cobertas de metrô e vê 522 pessoas aglomeradas olhando para a chuva com expressão de pânico, sem coragem de pôr o pé para fora do coberto. Imagine se estar esmagado no meio de outras 521 pessoas semi-úmidas é mais confortável do que simplesmente sair e sentir a chuva te molhar.
Deve ser algo cultural. Talvez eu saiba que, em Santos, se eu resolver ficar no coberto para esperar a chuva passar, existe a chance de ter que acampar “no coberto” e lá ficar esperando durante os próximos 3 dias. Enquanto aqui, a chuva mentirosa dura tempo suficiente para que os medrosos possam ficar poucos minutos debaixo do telhado, já sabendo que o seu fim está próximo (o da chuva, não o deles, creio eu).
Claro, não é nada legal chegar encharcado em casa. Dá gripe, leptospirose, baixa auto-estima e demais coisas desagradáveis. Mas isso não é explicação suficiente para as atitudes esquizofrênicas daqueles sujeitos engravatados da Paulista que temem a chuva. Será que eles nunca brincaram de correr no quintal e pular nas poças durante a chuva mais forte do ano? Eu faço isso até hoje. E ficar com gripe depois é inclusive parte da brincadeira. Burricos.