Archive for March, 2008

eu vi estrelas e pensei que eram aviões. *

Saturday, March 29th, 2008

Ontem (não, não foi ontem, que escrevi isso num bloco de anotações há pelo menos 1 mês e só agora estou transpondo isso para o mundo digital) eu vi estrelas e pensei que eram aviões.

Acho que foi a primeira vez, em 3 anos, que vi estrelas no céu aqui. Foi tão encantador. Foi estranho. Foi como se eu as estivesse vendo pela primeira vez em 20 anos. Eu não lembrava que elas eram tão azuis, tão próximas e tão piscantes.

Não é à toa que achei que eram aviões.

Deu vontade de parar e ficar olhando. Mas fui escrever essas frases. Qdo terminei, as pequenininhas já tinham sumido. Só sobraram as mais piscantes, grandonas, os aviões, as navesmãe.

Heroes brasileiro

Saturday, March 29th, 2008

Eu tinha um tantão de coisas pra falar dessa novela bizarra da Band (ou Record? sempre confundo). Mas preferi transcrever alguns diálogos aqui, me isentando de qualquer interpretação parcial que possa manipulá-los.

Favor ler isso como se estivesse lendo uma bula de remédios, e olhando para o horizonte, blasé, enquanto um dinossauro defeituoso tenta entrar sorrateiro para o mundo do 3D em CGI.

- O pai do meu filho é um mutante. Um vampiro. Ele chegou, começou a conversar comigo, queria meu sangue, não sei o quê.

- Esse policial virou um vampiro. Ele tentou atacar o meu filho!

- É, tentou me atacar também!

- Tem um ditado que diz que o coração dos outros é um território que ninguém pisa. Mas você, com esse poder de ler pensamentos, está pisando.

- Ah, entendi. Nesse caso imagino que você deve estar com medo mesmo.

- E eu nem sei que poder ele pode ter.

- Por que você não pergunta pra ela?

- Ah é. Olha ela passando aqui, vamos, vamos perguntar.

- Eu também estou sentindo a semente do medo. Um calafrio.

- Parece que todos os mutantes sentem isso. É um denominador comum.

- A Maria tem razão. Tem um leão lá fora.

- Ou talvez… (pausa+zoom) UM HOMEM LEÃO.

[fim do capítulo]

Dentistas e a Máfia dos Sisos Brancos

Friday, March 28th, 2008

Domingo, Dezembro 16, 2007

Meu siso nasceu e fui ao dentista. O Dentista é legal, cuida da minha arcada dentária desde que minha arcada dentária era feita de leite, coisa estranha essa.

Meu siso nasceu e foi ao dentista. Perguntei pro Dentista:

- Dentista, meu siso nasceu e vim te ver. Ouço histórias horríveis de pessoas que são devoradas pelos próprios sisos, de sisos que matam os dentes ao redor, e de línguas transformadas em sisos gigantes bem no meio da boca. Se não isso, qual é o motivo pra tanta gente arrancar o siso?

O Dentista olhou meu siso e gritou:
- Esse dente precisa ser extraído amanhã!

Depois que ele tirou a mão de dentro da minha boca, juntei meus dentes, realoquei meus maxilares e formulei:
- Mas por que?

O Dentista estacou. Vai ver pouca gente costuma questionar pessoas que possuem aparelhos capazes de sugar toda a saliva de suas bocas, mas me pareceu que o Dentista se encontrava num momento inusitado de sua carreira.

O Dentista respondeu que meu siso era um dente desnecessário. Não que ele fosse me fazer mal agora, agora ele estava até bem, até, mas a longo prazo, minhanossasenhora, a longo prazo pode até ser que ele me fizesse mal.

Eu disse, então, que se agora ele não estava me fazendo mal, preferiria respeitar a liberdade do meu siso e deixá-lo terminar de crescer em paz. Afinal, Dentista, não PRECISO arrancá-lo, preciso? O Dentista, ajustando a luz ameaçadora, daquelas usadas em depoimentos na época da ditadura, completou:

- Você não precisa arrancar esse dente. Mas você não precisa ter esse dente.

E me explicou que ele não serviria pra sorrir, porque fica escondido, não serviria pra comer, porque não tenho um siso inferior pra fazer parzinho com ele. Serviria apenas pra doer e deformar minha boca, e, veja você, já posso notar um pontinho de cárie bem aqui. De repente, me senti um siso. Não deve ser fácil para um siso, ser tratado com tanto desprezo assim. Agora entendi porque tantos sisos sofrem de baixa auto-estima.

De qualquer forma, não precisar arrancar, mas não precisar ter, isso é de uma lógica incompreensível pra mim. Prefiro ficar com a primeira negação, e foi o que eu disse. Dentista me recomendou apenas que então eu deixasse o dente quieto e cuidasse dele no decorrer de minha existência.

-Dentista, mas e o pontinho de cárie no meu siso?
- Ah, ela é ainda muito pequena, vamos deixar pra uma próxima.

Ele ignorou meu siso. Aguarda, ansioso, que ele apodreça sob meus cuidados, sei disso. Mas, ah, deixe estar. Desenvolverei uma relação ardente de amor com ele a partir de então. São 45 minutos de escovação diários. Só no siso.

O pior é que minhas suspeições estavam corretas. Aparelhos nos dentes e extração de sisos são parte de uma máfia, a máfia dental. Não quero acreditar que seja um plano pra que os dentistas ganhem mais dinheiros, então, boquiaberta enquanto tinha umas cáries sendo exterminadas, formulei minhas teorias na cadeira do Dentista:

- Depois da proibição à extração e venda de marfim de elefantes, os produtores de jóias e demais ornamentos partiram para uma maneira mais prática e segura de exploração dos recursos naturais. Os sisos são importados clandestinamente para a elite de países africanos ou de planetas mais distantes, onde colares feitos de dente são o último grito da moda.
- A fada dos dentes, perdendo espaço com o fim do imaginário infantil, agora cobra impostos muito altos dos dentistas. Se eles não entregarem determinada quantidade de dentes e fizerem um sacrifício humano por ano, o estrago na Terra pode ser grande.
- As convenções e encontros odontológicos possuem sessões de leilão, venda e troca de sisos. É uma excentricidade da classe. Quanto mais sisos um dentista tiver em sua coleção, mais ele é respeitado.
- A Seita do Siso Sagrado exige muita determinação e fé transcendental.

Dentistas são assim, aproveitam de nossa posição desconfortável e vão em frente. Ninguém se sente autoconfiante de boca aberta, sendo cegado por uma luz e ameaçado pela maquininha que faz Bzz. O homem com a maquininha que faz Bzz sempre deve estar certo.

Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Francine Guilen deu por si na cama transformada numa gigantesca joaninha.

Friday, March 28th, 2008

Quarta-feira, Novembro 28, 2007

espere por um post assim em breve.

É bem verdade que ando estranhamente obcecada demais por estes simpáticos insetos. Já tenho joaninha de pelúcia na minha cama, já tenho presilha de joaninha, bolsa de joaninha, camisa, sapato. Ainda hoje comi uma joaninha de chocolate. Agora veja você se justifica:

dia desses, como comentei aqui, uma delas pousou em mim no trem.
e ontem, tinha uma delas no meu quarto.
eu não moro na floresta, não tem flores na minha casa, nada vivo além de mim (e ainda assim durante poucas horas diárias).

qual é a das joanas?
Fico aqui matutando: estariam elas achando que eu faço parte da turma, ou que sou sua mãe? ou estariam elas querendo me pegar porque acham que já passei de todos os limites suportáveis de desrespeito aos direitos autorais?

desculpa, gente. Eu paro. Não precisa mandar uma representante em tamanho humano pra bater à minha porta e me cobrar, só vai me apavorar. Só admiro seu trabalho, só isso. Foi mal. Eu paro.

Pinga ni mim.

Friday, March 28th, 2008

Quinta-feira, Outubro 25, 2007

Gente, a chuva. É água caindo do céu, gente.
Eu pareço mesmo uma criança. Fiquei os últimos meses olhando pro céu, esperando uma gotinha de chuva cair de lá e tirar essa coisa seca do ar, do mundo. Agora chove sem parar faz dois dias. Sei que depois disso é capaz de eu esperar mais outros meses por ela. Sei dos seus problemas e blá e blá e blá. Mas sei que ela não quer desalojar ninguém, não faz por mal. Ainda assim, os jornais a tratam como coisa feia, como “CAOS EM SÃO PAULO: CHUVA FAZ CIDADE PARAR”.

Claro. Com essa filosofia do medo em cima dela, é lógico que os engravatados não exporão seus Armanis às gotas tóxicas e molhadas, por Deus, molhadas, desse monstro assassino, e vão pôr seus carrinhos nas ruas, em pânico. Assim como canta a lindaperfeitaumdiaaindasereicomoela Regina Spektor, em uma de minhas músicas favoritas:

Quer ver irritação é eu olhar pra barra de status do meu Firefox e ver que a previsão do tempo é “Bom Tempo”. Sempre que alguém vem me dizer que hoje “o tempo tá bom” me seguro pra não fazer um discurso ilógico sobre a subjetividade dessa frase. Porque tempo bom pra você, chuchu, não é tempo bom pra mim. Vou propor uma lei a respeito dessa frase castradora da identidade temporal-atmosférica-meteorológica das pessoas.

A verdade é que quando chove, me sinto o próprio “único garoto vivo em Nova York” da música do Simon & Garfunkel.

com a diferença de que eu sou uma garota. E não é Nova York, é São Paulo.

eu tenho problema com pronomes.

Friday, March 28th, 2008

Terça-feira, Setembro 18, 2007

nunca sei usá-los direito.
nunca sei usar eles direito.
nunca sei-los usar direito.
nunca seios usar direito.
nunca os sei usar direito.
nunca usá-los-ei direito.

eu tenho pronomes com problema.

ditado por francine guilen

Friday, March 28th, 2008

Domingo, Julho 01, 2007

uma coisa que me deixa muito mais tranqüila é que a profissão de escritora é a única que pode ser exercida além-túmulo. ou seja, se não der tempo aqui, pelo menos terei alguma coisa pra fazer durante a eternidade. e viva a zíbia gasparetto.

e esse foi mais um post da série “desculpas esfarrapadas de uma escritora incompetente”.

oi

Friday, March 28th, 2008

Quinta-feira, Julho 19, 2007

meu nome é Francine e a vida me ensina coisas diariamente.
Tem dia que ela me ensina que xadrez e listras na mesma combinação não combina.
Tem dia que ensina que para ser feliz basta um algodão doce na mão e nenhuma idéia na cabeça.
Tem dias que só uma consulta a um sábio chinês resolve.

Hoje eu consultei um sábio chinês e lhe fiz a pergunta fundamental para a existência daqueles que escrevem nessa Terra. Ao alcançar o cume mais alto da montanha mais alta da viagem mais alta, ingeri um ovo de águia e perguntei Oh sábio Chinês do Cume mais Alto qual é o segredo pra se escrever?

sua resposta veio como um trovão tronitruante três pratos de trigo para três tigres tristes dos céus:
- Escrever.

Então o sol me iluminou e as lebres apontaram para mim, rindo, antes da mamãe águia vir me matar.

Vou vender essa história para o Paulo Coelho e ganhar $10.000.
Ou talvez eu jogue na Bolsa… se tiver Ações.

de como eu não darei uma boa redatora publicitária

Friday, March 28th, 2008

Quinta-feira, Maio 24, 2007

sabe, eu tenho um problema muito grave, e isso deve remontar da minha linda infância, quando eu matava minhas Barbies e as enterrava no fundo doquintal. O causo é que eu sou muito digressiva. Não sei se só quando eu escrevo ou se quando falo também é assim. É só eu ter a idéia de escrever, sento diante do computador e, quando começo a digitar, já era. As palavras vão saindo como se eu fosse o próprio Chico Xavier (aquele que eu confundo com o Juca Chaves), e não tenho como evitar. E eu fujo do assunto muitas vezes e fico escrevendo loucamente como se não houvesse amanhã, pra terminar em um texto enorme que ninguém tem paciência de ler. Só eu. Vai ver é porque eu aprendi a ler aos 4 anos e sou meio que viciada nisso (apesar de andar vergonhosamente não pondo em dia esse vício). E isso é um grandesíssimo problema, afinal [e ninguém mandou eu assinalar o X em Publicidade há 3 anos atrás] um dia quem sabe eu trabalharei com redação publicitária, e se tem uma coisa que eu aprendi é que as pessoas não curtem muito anúncios alltype de 52 páginas. Daí que eu tento e me esforço muito pra escrever menos, mas te juro que é mais forte que eu, não dá, quando eu vejo já estourou o número de caracteres em uns 5 mil, e a única coisa que resta pra mim (como sempre) é tocar um tango argentino. Eu já recebi reclamações de leitores preguiçosos do Pargarávio, diversas vezes, então dedico esse post for all… of YOU (com voz de Graham Chapman). Vou até tentar fazer uma versão resumida de todos os futuros posts em uma linha a partir de agora, vai ser divertido e muito mais prático, vocês vão ver só.

sabe, eu tenho um problema, e isso deve remontar da minha linda infância. O causo é que eu sou muito digressiva. Não sei se só quando eu escrevo, mas é só eu ter a idéia de escrever, sento diante do computador e, quando começo a digitar, já era. As palavras vão saindo como se eu fosse o próprio Chico Xavier, e não tenho como evitar. E eu fujo do assunto muitas vezes e fico escrevendo loucamente, pra terminar em um texto enorme que ninguém tem paciência de ler. Só eu. Vai ver é porque eu aprendi a ler aos 4 anos e sou meio que viciada nisso. E isso é um grandesíssimo problema, afinal um dia quem sabe eu trabalharei com redação publicitária, e se tem uma coisa que eu aprendi é que as pessoas não curtem muito anúncios alltype de 52 páginas. Daí que eu tento e me esforço muito pra escrever menos, mas não dá, quando eu vejo já estourou o número de caracteres em uns 5 mil, e a única coisa que resta pra mim é tocar um tango argentino. Eu já recebi reclamações de leitores preguiçosos do Pargarávio, diversas vezes, então dedico esse post for all… of YOU . Vou até tentar fazer uma versão resumida de todos os futuros posts em uma linha a partir de agora, vai ser divertido e muito mais prático.

sabe, eu tenho um problema. O causo é que eu sou muito digressiva. É só eu ter a idéia de escrever, sento diante do computador e, quando começo a digitar, já era. As palavras vão saindo, e não tenho como evitar. Eu fujo do assunto e fico escrevendo, pra terminar em um texto enorme que só eu leio. Vai ver é porque eu sou meio que viciada nisso. E isso é um grandesíssimo problema, afinal um dia eu trabalharei com redação publicitária, e as pessoas não curtem muito anúncios alltype de 52 páginas. Daí que eu me esforço muito pra escrever menos, mas quando eu vejo já estourou o número de caracteres em uns 5 mil, e a única coisa que resta é tocar um tango argentino. Eu já recebi reclamações de leitores do Pargarávio, então dedico esse post for all… of YOU . Vou até tentar fazer uma versão resumida dos futuros posts em uma linha a partir de agora, vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema. eu sou muito digressiva. É só eu sentar diante do computador e já era. As palavras vão saindo. Eu fico escrevendo, pra terminar em um texto enorme que só eu leio. E isso é um problema, afinal um dia eu trabalharei com redação publicitária, e as pessoas não curtem anúncios alltype de 52 páginas. Eu me esforço pra escrever menos, mas quando vejo já estourou o número de caracteres, e a única coisa que resta é tocar um tango argentino. Eu já recebi reclamações de leitores, então dedico esse post a eles. Vou fazer uma versão resumida dos futuros posts em uma linha a partir de agora, vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema: é só eu sentar diante do computador e já era. Eu fico escrevendo, pra terminar em um texto enorme que só eu leio. E isso é um problema, afinal trabalharei com redação publicitária, e as pessoas não curtem ler 52 páginas. Eu me esforço, mas quando vejo já estourou o número de caracteres. Eu já recebi reclamações, então dedico esse post aos que reclamaram. Vou fazer uma versão resumida a partir de agora, vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema: eu fico escrevendo, pra terminar em um texto enorme. Trabalharei com redação publicitária, e as pessoas não curtem ler. Eu me esforço. Eu já recebi reclamações, então dedico esse post. Vou fazer uma versão resumida, vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema: eu fico escrevendo um texto enorme. Trabalharei com redação e as pessoas não curtem ler. Já recebi reclamações. Vou fazer um resumo, vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema. Trabalharei com pessoas que não curtem ler e devia escrever menos. vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema. pessoas não curtem ler. eu devia escrever menos. vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema. vai ser divertido.

sabe, eu tenho um problema.

problema.

O Homem que Socializava Demais

Friday, March 28th, 2008

Quinta-feira, Abril 19, 2007

Aconteceu num dia, foi de repente, assim tão de repente que parecia até coisa da Clarice Lispector. Ele tinha acordado meio Calvino aquele dia, e sabia que alguma coisa de muito inconveniente resultaria desse fato. Foi mais ou menos (um pouco mais do que menos) quando ele entrou no ônibus e viu aquele senhor puxando a cordinha pra avisar o motorista. Aquela cordinha, aquela cordinha puída e insignificante foi o estopim para o início do momento epifânico, que se fosse escrito pela Clarice daria meio que um livro inteiro, daqueles bem cheios de aaaahs e oooooohs e inclusive protagonizaria uma cena de luxúria e um suicídio, ao mesmo tempo (teria até gente se enforcando na cordinha, coisa feia de se ver). Mas como não sou Clarice (e agradeço aos céus a cada dia por isso), só vou dizer que

Oh - pensou o homem em um pensamento monossilábico. E ele olhou em volta e viu quanta gente tinha em volta dele. E ele percebeu que todas as pessoas eram pessoas. E que todas as pessoas (que eram pessoas) tinham algo a dizer pra ele. Que se ele tivesse nascido no bairro vizinho, provavelmente seria o melhor amigo do motorista do ônibus, e que nada ou pouca coisa impediria de que aquela simpática velhota babando no banco de trás fosse sua sogra.

Então ele pensou em um universo em crise em que ele conhecesse todo mundo. Seria tão mais fácil, e ele teria as chances e as oportunidades em dobro, em triplo, em quádruplo, em pentágonuplo. Só conhecendo todas as pessoas do mundo ele seria capaz de saber tudo o que a vida poderia lhe oferecer. Ele não imaginaria mais como seria seu futuro se ele fosse amigo da menina de óculos que andava na calçada do outro lado da avenida. Era só chegar lá, e fazer o futuro acontecer fora da imaginação dele. E ele começou sua estratégia. Entrava e dava oi. Pra todos. Cumprimentava com beijinho, se apresentava, dava cartão de visita. No começo, falava do tempo, comentava sobre a política e o futebol, mas a prática foi tamanha que ele era capaz de saber o assunto preferido de seu mais novo conhecido antes mesmo de cumprimentá-lo. E foi. E o trabalho foi ficando cada vez mais prático. Quanto mais gente ele conhecia, mais eles lhe apresentavam seus amigos, que apresentavam seus amigos, que apresentavam seus amigos.

Muitas vezes, em sua primeira aproximação, as pessoas se espezinhavam e a polícia era chamada. Mas ele conhecia todo o corpo de polícia. Tudo acabava em um jantar numa pizzaria próxima. De graça, porque ele era amigo do dono.

E era chamado pra festas, e nas festas conhecia todo mundo. E no ônibus conhecia todo mundo. E na sua casa, é, na sua casa também. Nas ruas, nem andava mais, tendo que parar pra cumprimentar todo mundo. E pra lembrar as datas e as preferências de cada um, foi tabulando em livros e HDs, tem hoje uma biblioteca muito completa em casa. Ele até conhece você, acredite. E como ele sofria ao cubo com as mesquinharias de amizades e relacionamentos, mas como ele se divertia. Se divertia e se divertia.

Certa vez perguntaram pra ele o que ele vai fazer quando conhecer todas as pessoas.
- Provavelmente vou me convencer de que elas são tão parecidas comigo, mas tão parecidas, todas elas, que vou achar mais divertido comprar uma cabra. Agora me dê licença, porque preciso visitar 5 mil crianças que estão nascendo hoje. Cada nascimento é um novo contato, é um trabalho sem fim.