June 30th, 2009
presente de começo de fim de tarde
ia colocar no twitter, mas de repente lembrei que aqui tava tão desatualizado. :S
ia colocar no twitter, mas de repente lembrei que aqui tava tão desatualizado. :S
Morar sozinha na cidade grande, viver longe da família, desprendida, entendida de tudo, e isso é tudo o que a gente faz parecer pra não pegar mal. É comer de colher mesmo, porque você prefere e ninguém vai te julgar, é tomar café da manhã de pé, é fazer suas refeições com os personagens da novela, é aproveitar a mesma mistura durante uma semana. É lidar com as panelas e não usar prato pra comer porque lavar louça no frio é crueldade.
E o inverno, o inverno é cruel. Às vezes o que dá mais vontade é de sair do trabalho e ir direto pra casa da vó, onde vou me enfiar debaixo das cobertas e ficar conversando sobre coisas que não têm nada a ver com meu dia-a-dia e comendo coisinhas de vó, sendo elogiada, querida e cobrada sobre casamento.
Minhas avós estão vivas e lindas :), mas moram a 450 quilômetros daqui. E o pior é que os bolinhos de chuva de ambas valem 7 horas de viagem.
Pois aqui vai mais uma ideia pra quando eu tiver muito muito dinheiro e um espírito empreendedor esquisito (duvido que um dia eu tenha um desses). Vou fazer a Casa da Vó, um abrigo assistencialista para os migrantes de outras cidades ou pessoas que por qualquer motivo vivem longe de suas nonnas.
Vai ter um monte de velhinhas para paparicar os frequentadores, recebendo cada um com um abraço de vó. A casa vai ter decoração de casa de vó, com todas aquelas lembrancinhas de porcelana de casamentos, batizados e bodas de ouro, e um monte de fotos dos frequentadores. O cheiro no ar, aquela mistura de refogado, naftalina e móvel antigo. E muita, muita comida boa, oferecida com a sinceridade de quem acha que você ainda tem o seu apetite de 15 anos. Na recepção, todo frequentador fará uma lista com seus pratos favoritos, que serão preparados todos os dias em que ele passar por lá (nota: mesmo se enjoar).
Todo mundo sai de lá com um presente: um casaquinho, uma pulseira de miçangas, uma sacola de panos de prato “para o seu enxoval”.
Pense: temos um monte de velhinhas sozinhas e super talentosas que precisam fazer alguma coisa da vida.
E temos esse monte de migrantes de todos os cantos nos grandes centros, que não têm pra onde ir no domingo, e acabam em casa, de pijama, assistindo Sílvio Santos e twittando sobre a Maísa.
A Casa da Vó só pode ser um sucesso.
Se alguém de recursos ler esse post, contate-me e eu vendo a ideia.
Se alguém de recursos ler esse post e roubar minha ideia sem falar comigo, que traças roam seus olhos enquanto você estiver dormindo.
Hoje estava numa sessão de depilação amaldiçoando esse processo evolutivo todo. A gente podia ter vindo de qualquer outra espécie, menos cheia de pelos. Pensei em descender das aves, já que até as penas mais feias são bonitas, tem gente que tem coleção de penas, vejam os senhores. E duvido que a gente se depilaria se tivesse penas azuis e glamurosas como a de pavão pelo corpo. Apesar de que não duvido muito de que a mulherada, entediada em algum ponto do decorrer da civilização, iria inventar a depenação. Com muita água fervente e fogo pra chamuscar o que restasse depois do trabalho sujo.
Outra opção era descender dos répteis. O ruim seria a pele horrorosa. A gente não teria muitos problemas com envelhecimento, mas esse negócio de trocar de pele não deve ser muito prático. Fico então com os anfíbios, muito mais bem resolvidos. Ia poupar muito trabalho. Uma pele escorregadia e gelada e muito menos atritos na vida.
E fica a questão:
Estive lidando com meus sisos e lembrei daquele fato que comprova a teoria da evolução, a de que tem gente que nasce sem siso, o que quer dizer que continuamos nos adaptando e evoluindo. Mas agora alguém me explica. Aprendi no colégio que isso era tudo coisa dos genes, que os mais adaptados sobreviviam e se reproduziam. Por isso é que uma mutação pegava. Então quer dizer que essa da falta de siso está pegando porque quem não tem siso se reproduz melhor? Estou eu em desvantagem na escala evolutiva? Se eu morrer cedo antes de legar a minha miséria aos meus descendentes, serei mais uma pra estatística darwiana anti-siso? Esse meu raciocínio é uma burrice ou uma falácia?
Falácia me lembra alfafa.
Queria fazer mais um blog (MAIS UM) só com algumas coisas impagáveis que leio no MSN. Estes pensamentos eu não posso citar de quem são, por questões sigilosas.
“Você nao cansa das pessoas de vez em quando? Não queria que elas estivessem por perto apenas como figurantes? Apenas para não deixar o mundo solitário. Acho que você seria a companhia perfeita hoje. Mas ia ter que ficar quietinha. A gente podia sair e ir assistir a um filme de cinema mudo.”
Quando respondi que hoje eu vou em um show de um grupo indie da República Tcheca (é, isso mesmo), ele me respondeu:
“Show de música tcheca é para um público específico: recém-formados que não sabem o que fazer quando não têm mais TCC.”
strike!
Sabe a mão invisível do Adam Smith?
Mão invisível foi um termo introduzido por Adam Smith em “A Riqueza das nações“ para descrever como numa economia de mercado, apesar da inexistência de uma entidade coordenadora do interesse comunal, a interação dos indivíduos parece resultar numa determinada ordem, como se houvesse uma “mão invisível” que os orientasse.
A cada dia que passa acredito mais que ela existe no sentido do estado de ânimo das pessoas. Não sei se é coisa da minha cabeça desarranjada, mas quando tenho um ano ruim, parece que todo mundo perto de mim também teve. Quando o ano foi lindo, é lindo pra todos, quando é complicado, é difícil pra todo mundo. No próprio Twitter, numa escala menor, os humores sempre estão na mesma cor. Um tweet “dia maldito” precedeuns 6 de “este dia está horroroso”.
Sim, eu vejo padrões nas coisas. E acredito no efeito dominó do humor. Acho que pega. Mais do que texto de filme de operadora de celular, é uma coisa maior que essa. Que eu expressaria melhor se não estivesse correndo para ir assistir ao Wolverine. De graça.
See yall.
Pois ciúmes tem de dois tipos, o que dá mais vida e o que tira. Ela nunca deu motivos, ele encontrou todos, e no desespero do ciúmes pegou uma arma e a matou. A própria esposa, na frente do berço do filho mais novo. Sempre teve o sangue quente da Espanha: tinha um armazém, mas se os filhos quisessem comer algo tinham que pedir a chave do armário, que ficava sob sua vigilância. Quando um filho o importunou pedindo por bananas, fez o menino comer tantas bananas que ele passou mal mal mal.
Não que fosse um homem mau, era um homem antigo. Parece que naquela época as coisas más eram menos más. O tempo reescreve as crueldades de um jeito diferente.
Depois da tragédia, os filhos se dispersaram. Um deles, ainda novo, de seus 11 anos de idade, foi morar com os mais velhos. E 11 anos já era quase um homem. Foi num passo que ele virou alfaiate. E boêmio. Com uns 15 anos já bebia a não mais poder, de ficar largado pelas ruas e passar a noite deitado na calçada. Só esperou a voz firmar pra sair cantando pela vida e virar seresteiro. Até hoje sabe cantar bem, numa voz como as do Francisco Alves, Carlos Galhardo, esses moços todos na época em que as pessoas tinham voz, bigodes e cabelos lustrados. Mal sabia ele que em suas noites de bebedeira uma moça passava por ele e ficava penalizada a ponto de chorar em casa.
Foi com ela que se casou. Não sem antes penar muito. Pois ela era uma das moças mais sérias das redondezas. De família religiosa, pai ministro da igreja. E ele, um boêmio. Conversaram muito. Ela não deixava que ele sequer segurasse sua mão, durante todo o namoro. O namoro era a conversa. Ela fez suas exigências. Ele fez suas serenatas. Vai ver ela era muito bonita, vai ver ela era muito esperta, vai ver foi algo muito maior que isso, o amor, o Amor. Ele endireitou.
Hoje estão casados há 60 anos. Bodas de diamante, é o que chamam essas 6 décadas, que é a pedra preciosa mais difícil de quebrar de todas. São tão apaixonados que até dói. Até hoje ele canta pra ela. E ela sorri como uma adolescente.
E de toda essa música, nasceu meu pai.
Todas as filhas se reuniram, quando ela estava no leito de morte. Pra ver se a circulação melhorava, pegavam escovões, daqueles de limpeza, e esfregavam nos braços dela. Não adiantou. Foi embora e levou a alegria da casa grande que ficava em Minas. Até hoje ninguém sabe a causa. O marido não sei onde estava, mas é possível que estivesse viajando, eram viagens de dias e dias, lidava com gado, carne, compra e venda.
Mas a amava demais. Não durou muito. Morreu meses depois. Diz que foi de desgosto.
A mãe dela viveu mais um pouco. Só usava vestidos de bolinhas. Uma fixação, provavelmente congênita. Guardava tudo dentro do espartilho, onde cabia tudo, e se orgulhava da educação severa que deu aos filhos. Beata das mais carolas, ninguém sabia quando uma de suas filhas estava grávida, até se ouvir um choro. Era tanto saiote que não se notava a diferença mesmo.
A mãe dele devia ter algum dinheiro. Estava envolvida com o tráfico negreiro, e foi pega de surpresa pela Princesa Isabel bem no momento em que um punhado de escravos estavam - eram muitos - sendo levados por ela. Sei que não tinha Twitter na época, mas as notícias se espalhavam mesmo assim. No meio do caminho, os negros ficaram sabendo da boa notícia - a lei da abolição era um fato, corre, pessoal - e espertamente se mandaram. Ela chegou em casa sozinha e desacorçoada.
Pois quando pai e mãe morreram eram novos, mas deixaram vários filhos, como era comum naquele canto de época. Ela era a mais novinha, com 9 anos. Não entendeu muito bem o que estava acontecendo. A vida varreu os filhos pra cada canto, e ela foi morar com o irmão casado. Na primeira semana, a cunhada colocou a menina pra trabalhar como doméstica. Seu primeiro emprego: faxineira na casa de uma das principais damas do bordel da cidade. A cama, toda cheia de enfeites, cortina luxuosa, só faltava espelho no teto. A patroa passava o dia fora, e ela ficava lá, cuidando dos dois filhos da moça. Ela tinha 9 anos. Mas criança, naquela época, mal existia. Em poucos dias, ela percebeu onde estava e deu um jeito de pedir as contas.
E continuou trabalhando como doméstica. Em casa de gente fina, que foi onde ela aprendeu a cozinhar e a educar tão bem. Era linda linda, saltava aos olhos para todos os capiás daqueles confins, mas sabia se defender melhor do que qualquer deles. Uma vez o coroa da cidade aplicou-lhe uma cantada, que foi recebida com um delicioso “quem gosta de velho é cadeira de balanço”.
Aí ela conheceu um italianão bonito. Ele era filho de um marceneiro mais bonito ainda que morreu em um acidente de carro. Quando casaram, se mudaram várias vezes. De São Paulo foram pro Mato Grosso, e tiveram que dar uma atrasada na própria vida. E não foi escolha de publicitário que resolve largar tudo e apreciar o mato, não. No Mato Grosso não existia nem descarga. A casa deles foi a primeira a instalar uma.
A diversão da criançada era mostrar a descarga para os amiguinhos. Ao ouvir o som, eles saíam correndo. De medo.
E fizeram de tudo pra se virar. Enquanto ele tentava sustentar a casa, de 7 filhos, com a marcenaria, ela ajudava. Abriu lanchonete, entregou marmita, fritou salgadinho. Seus salgadinhos tinham gosto de céu. Certa feita, assumiu uma encomenda de frangos pra uma festa que ia ter na cidade. Duzentos frangos foram entregues - vivos - na casa em que moravam. Os 7 filhos se organizaram, então, em um verdadeiro fordismo aviário: um libertava o frango e o outro segurava, pro bicho não correr enquanto o outro cortava a cabeça do coitado. 200 frangos foram pendurados no varal pro sangue escorrer. 200 frangos foram limpos por ela e pelas filhas.
Uma dessas filhas era minha mãe. Ela come frango até hoje. E minha vó tem muito mais história que isso.